quinta-feira, 11 de março de 2010

Vuelvo al Sur

Vinte, mais três de barco, três ida, três volta...mais essa última..CENTO E CINCO, disse em voz alta, para o espanto da garota que aguardava na poltrona ao lado, na sala de embarque do aeroporto de Buenos Aires.
Foram cento e cinco horas de viagem, incontáveis quilômetros, inúmeras pessoas e interrogações como Te gusta Evo? Y este tipo ahí, Piñera, que tal? La Quilmes de litro, cuanto vale?

Quando saí daqui com uma mochila nas costas e um sorriso na cara, não imaginava o tanto de contrastes, colores e sorrisos que me esperavam nas bordas daqueles picos nevados, no fundo daqueles vales ou no meio daqueles desertos.

Desde Chicho, o traficante bolivariano, até Fernando, o tupi que não gostava de aymarás, a Bolívia se levanta como uma nação multicultural, ainda com muito a consertar nas suas entranhas.
A Argentina, com seu estranho hábito de comer até arroz com pão, continua ali, com a mesma habilidade para escolher presidentes, vinhos baratos e gente calorosa
O Chile, ah o Chile, algo tinha de errado, morenas de olhos puxados, cidades organizadas..o chão treme por lá, mas que tenham força para se levantar.

Na hora que baixei a mochila na calçada da indefectível Nestor de Castro, com seus ônibus e dedos amarelos, percebi que mesmo quando se desbrava e conhece lugares distantes e incríveis, nunca se mata o sentimento de pertencer a alguma terra. Sou daqui, mas vou por aí.

Ao ver gente trabalhando pelas ruas, barulho de trânsito, gente simpática (e também grosseira) em um lindo caos ensolarado e chuvoso no verão, começa a se ter certeza: estou na América Latina, estou no Brasil, estou em casa.



Meus nem tão calorosos agradecimentos a quem seguiu a trip por aqui. A ideia era fazer semi-reportagens, o que acabou desandando bem rápido, dada minha preguiça e curto talento para a arte da escrita.
Guarde seu suado dinheiro e vá conhecer o mundo. É do tamanho que você imagina.

Pense positivo hoje

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Confirmado. Estou bem.

Tenho séria preguiça de escrever tudo o que passou nos últimos dias, ou me falta coisas interessantes em demasia que valha a web, todavia, confirmando: Estou bem

Escapei do terremoto no Chile creio que por horas. Sai de lá pela manhä, passei 25h em um bus rumo a Buenos Aires e aqui estou.
Cheguei, baixei as mochilas e sai caminhar a tarde toda, entäo só fui saber do que passou no final da tarde.

Conheci gente que ainda está lá e que é de lá. A coisa foi bem feia e, em Concepción, a cidade mais atingida, as coisas estäo caóticas, com saqueos e tudo mais. Santiago e Valparaíso também foram atingidas, em menor escala. Os voos e creio que também önibus que iriam a Santiago estäo suspensos desde Argentina e Brasil.

Ou tenho muita sorte, ou muito azar.

Eu deveria estar em Machu Pichu quando aconteceu os deslizamentos, näo estava porque demorei para tomar a vacina obrigatória e preferi ficar um dia mais em Campo Grande.

Eu deveria estar no Chile durante o tremor, mas preferi viajar na sexta para aproveitar o sábado aqui.

Enfim, está tudo ok. Volto Logo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um museo de tristes lembranças

Santiago se parece Säo Paulo, näo obstante, tem uns 15 milhöes de habitantes a menos, algumas ciclofaixas, trânsito respeitoso e avenidas largas e verdes.
O Chile é um dos países mais peculiares da América Latina. Sempre teve uma postura ofensiva em relaçäo as Relaçöes Internacionais, tomou o mar da Bolívia, uma parte da Patagônia argentina, permitiu a presença da Inglaterra durante a Guerra das Malvinas, preferiu a Alca ao Mercosul e, näo obstante, causou uma corrida armamentista no sul do continente a partir de 2003, quando resolveu investir pesado em armamento ninguém sabe para quê, mas todo mundo resolveu fazer o mesmo desde entäo.

Assim como toda a América do Sul, a década de 1970 foi marcada aqui pela Operaçäo Condor. O governo americano, em plena corrida da Guerra Fria, resolveu investir prata para evitar o socialismo no andar de baixo, dando aos militares a autorizaçäo para realizar um verdadeiro massacre à americana.

O Chile, como no Brasil, somam 3 mil desaparecidos políticos daquela época. A Argentina ganha com seus mais de 10 mil. Após dez anos de construçäo, Santiago inaugurou seu Museo de la Memoria em fins de janeiro. Chacoalhei por alguns minutos em espaçosos e limpos vagöes de metrô até lá.

O projeto arquitetônico é de dois paulistanos. Um grande cubo de concreto e cobre esverdeado com três andares e muitas lágrimas, incluo as minhas nessa lista.
Em exposiçäo estäo vídeos do fatídico 11 de setembro de 2003, cartas de filhos para pais no exílio. Bilhetes de filhos à mäe dizendo "Quarta-feira estarei livre e enfim te abraçarei, mamacita", emoldurado ao lado do atestado de óbito datand terça à noite.
A estória mais surreal é a de um casal de estudantes que foi levado em meio a uma estrada deserta. Os militares os encharacaram com gasolina e, seguindo ordens, atearam fogo e foram embora. Já estaria surreal o suficiente por aqui, mas eles sobreviveram e caminharam alguns quilômetros - como zumbis, como relatam no testemunho - em busca de ajuda. O rapaz morreu, ela continuou viva, com 80% do corpo queimado para contar em um pedaço de papel amassado, dias depois o que aconteceu. O papel está lá.

O que mais me indignou na história toda näo aconeteceu no Chile, aconteceu na outra costa, onde esqueci de pagar o aluguel no dia 20.
Na entrada do museu, um corredor com placas de diversos países da África, Ásia e Américas explicava um pouco sobre suas tragédias e sobre os desdobramentos de seus julgamentos. Faltava uma placa ali.

Durante a noite alguém invade sua casa, sem explicar nada, leva seu filho, sem dizer para onde. Ele nunca mais volta. A paz volta a reinar no seu país, seu filho näo, e os assassinos dele levam a homenagem nas principais rodovias que cruzam o país, bem-vindo ao Brasil. Nunca julgamos nossos carrascos, nunca encontramso nossos mortos.

"Ayer buscavamos nuestros hijos. Hoy buscamos sus huesos. Esto no se va a terminar nunca y nunca volverá a normalidad, pues ya me olvidé como se fuera la vida en la normalidad" (testemunho de uma mäe sem seu filho, Chile, 2003)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Hermanos, gringos e o periódico

Embarquei rumo a Mendonza depois de uma noite arregada, com uma mesa farta de saladas coloridas preparadas por um francês, professor de tango e cozinheiro de mäo cheia nas horas vagas.
Depois de muita quinua, albahaca e berenjena com zapillito, é claro, rolou uma aula de tango.

É uma das coisas mais difíceis e legais de se faezr que existe na Argentina - só ñ é mais difícil do que conseguir um café decente, forte - exige concentraçäo, equilíbrio, atitude. "Ñ finge que vai, vai e leva a dama junto". Até que enfim achei uma dança opnde posso expressar meu fogo latino. Quando voltar a Curitiba, vou ter aulas de tango.

Minha sorte para ônibus continua a mesma. Embarquei em um semi-cama täo grande que minhas pernas ñ alcançavam a poltrona da frente. Café com alfajorzinho, filme dublado e um bingo! Me faltaram três números para aquela garrafa de Malbec, mas isso ñ me chatearia mais do que o argentino enorme que sentou ao meu lado a partir de Catamar.ç

Sou um fodido. Viajo no maior ônibus da minha vida e, justo ali, senta o maior cara que já vi na Argentina, me ocupando meia poltrona e algumas horas de sono. Boludo que sois.

Um pouco de jornalismo

Domingo é dia de jornal. Após uma busca infrutífera por um café, pulando canais por aí

(Curiosidade do dia: Mendoza é um deserto que fica pròximo a picos nevados. Para resolver o problema com a água, existem canais espalhados por todas as ruas da cidade. É como o nosso meio fio, mais com um metro de profundidade, por onde corre um pequeno rio nessa época do ano. A água vai escoando pela cidade toda, sendo guiada por pequenas comportas e acaba nas vinícolas de Malbec e Syrah da regiäo. Me disseram que näo, ninguém se machuca com frequência caindo ali)

encontrei uma ediçäo do local Los Andes. O suplemento de cultura falava da explosäo das bandas de klezmer na Argentina. É um ritmo balcânico, com tuba, clarinete e dança. O pioneiro da coisa, Emir Kusturica, vive na Argentina agora e algumas bandas locais como Simja Dujov & The Strudel Klezmer Band, chamado de "Manu Chao judío", de Córdoba, Segundo Mundo e Zíngaros, de Buenos Aires, já pipocam por aqui.

Outras manchetes säo a eterna disputa das Malvinas. A Inglaterra está trazendo uma plataforma privada de exploraçäo de petróleo para cá e Kristina ficou chateada. As Malvinas säo, em teoria, território ocupado pela Inglaterra, mas, em se tratando de uam ilha na plataforma oceânica, todo o mar que a cerca, é argentino.
As Malvinas fazem parte de uma história triste para os hermanos. Já ao fim da ditadura, o governo argentino resolveu que queria de volta, se meteu em uma guerra sem nenhuma chance de vitória, matou alguns milhöes de jovens a serviço de nada e tudo o que sobrou disso foi um rancor com o Chile, o único país da regiäo a autorizar o pouso de aviöes ingleses para bombardear as Malvinas.

A eleiçäo de Dilma no congresso do PT também fez barulho por aqui. A "dama de hierro", é descrita como de temperamento forte, a segunda pessoa mais poderosa no país e tem seu passado guerrilheiro questionado. Dizem que ela fazia parte, foi torturada, mas nunca meteu bala em ninguém.


Já gosto de fernet. É uma bebida destilada feita com ervas, tem gosto de Composto Catarinense, mas depois do segundo copo vai que é uma beleza. Tomamos um monte desse durante um churrasco que subvertemos a ter um especial para vegetarianos no Hostel.


Amanhä me arranco ao Chile, com alguns vinhos na mala, um montäo de novos amigos europeus que conhecem Foz do Iguaçu e uma simpatia especial pelos argentinos, um povo caloroso, com traços italianos que me lembram minha família.


Passagem de volta marcada, coloque cerveja para gelar e responda meus e-mails

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Salta, La Linda

Parecia um dia de oportunidades. Depois de um longo dia caminhando por entre o Cerro de Siete Colores, um conjunto de morros de diferentes tos, que variam do verde ao laranja e vermelho, em Pumamarca, fiz as maas e sai decidido a ir até Salta, da maneira mais rápida e econômica.

Baixei do camping até a cidade sob forte sol e no quiosque lotado da única agência de micros da cidade, se anunciava que o próximo só às 13h30, talvez. Eram 10h, eu tenho 25 anos e muita disposiçäo. Aproveitando o ensejo de que o dono do camping percebesse que eu estava indo embora sem pagar, rumei até a Ruta 9, 3km de caminhada com anchas mochilas nas costas.

Ali, me disseram, ou conseguia uma carona ou um ônibus que iria direto a Jujuy, sem entrar em Pumamarca. A paisagem colaborou para que ñ percebesse como demorou a caminhada e como era estúpida a ideia de pedir carona no meio do deserto argentino às 11 da manhä.

Antes que começasse a me arrepender, um ônibus rumo a Jujuy passou e meus problemas acabaram. Sentado no chäo do coletivo, costurando uma pulseira nova com fios que ganhei de uma argentina que ñ sabe se quer ser jornalista ou hippie (eu aconselhei a segunda opçäo), cheguei em Jujuy uma hora e meia depois, para esperar mais uma e rumar até Salta, La Linda, como é chamada.

Era um dia de oportunidades. Na noite anterior conheci Florencia, neta de argentina, que me garantiu que quando eu estiver em Buenos Aires, na semana que vem, vai ter poroto negro (feijäo preto) para que a avó mate as vontades de falar português com algum brasileiro.

Agora faço as contas de quantos dinheiros me restam e planejo o que caralhos eu vou fazer durante as 18h de viagem até Mendoza, amanhä pela tarde.
O roteiro enfim saiu, sexta estarei tomando vinho em Mendoza, segunda ou terça subindo Valparaíso de bondinho e talvez na segunda que vem ligando para a Copel religar minha luz, porque a conta já atrasou.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Morte ao carnaval

Após dias de rei em Uyuny , me recuperei quase que por completo e tomei o jipe rumo ao Salar de Uyuny. No meu grupo, duas chilenas de Valparaíso, dois chilenos de Santiago e uma alemä que vive em Guayaquil, no Ecuador. Excelente companhia multicultural.

O deserto é lindo, seguramente uma das paisagens mais bonitas que já vi na vida. Como é época de chuvas, um espelho d´água infinito se estendia , refletindo o azul do céu. Pura psicodelia.
A agência que escolhi pode ter deixad um pouco a desejar. Escolhi porque diziam "opción veggie" no menu dos almoços e jantares, mas ñ sabia que ovo frito mole era a opçäo. Se tem uma coisa que realmente me maltrata o espírito é ovo, seja lá de que forma ele apareça no prato.

Visitamos o Salar, lagunas coloridas, desertos de pedra que, se ñ fosse um teoria täo estúpida, eu juraria que eles passam a máquina pra deixar tudo retinho. Comemos muita, mas muita poeira, passamos um dia sem banho e volvemos a Uyuny. Quebrados porém satisfeitos.

Quando voltei para a cidade já me atrapei em uma confusäo com os planos de viagem. Ficar mais duas noites esperando o trem seria uma tortura. Passar uma noite em um ônibus em condiçöes suspeitas, em uma estrada de status equivalente, seria uma aventura.

Resolvi meter o pé da Bolívia e tomei o bonde para Villazón, fronteira Bolívia-Argentina.
A estrada até lá incluía um micro-ônibus cheio de gringos em uma estrada que tremia tanto, que fiquei com medo de que um dos vidros se rompesse e um dos alargadores me caiu da orelha (precisa de um esforço ou sobrehumano ou feminino para fazer isso)

Trocamos de carro em Tupiza, agora para uma estrada em melhores condiçöes, em meio aos cânyons que têm por ali e chegamos 11 horas depois ao destino. Sem hesitar, me coloquei a caminhar até a fronteira, troquei dinheiro a um câmbio ruinzinho e peguei outro ônibus, já em La Quiaca, na Argentina, rumo a Humauaca, um poblado ao norte.

O que ñ contava é que Humauaca é a Camboriú dos argentinos que ñ saem da Argentina. É carnaval e, por toda a cidade, se amontoa gente bêbada apontando sua orelha ou arremessando balöes d´água nas turistas.As hospedagens estäo todas lotadas ou ao triplo do preço normal.

Encontrei um casal de porteños apaixonados durante a busca. Lucía e Julián, ñ devem passar dos 19 anos e ardem de paixäo, aquela que te deixa ou constrangido ou deprimido por ñ ter alguém para chamar de mi amor ou corazón a cada cinquenta segundos

Conseguimos encontrar um quarto onde, por 20 pesos (já sinto a dor dos preços daqui), nos deixaram esticar os sacos de dormir em cima do nada. Ao menos trouxe meu travesseirinho inflável, presente de uma ex-sogra à minha cervical.

Mañana por la mañana me vou aTilcara, outra ciudadela aqui próxima. A ideia é passar uma noite em cada vilarejo, sendo cinco, terminnado em Cafayate, onde subo a um ônibus até Mendoza (ou Córdoba), de onde sigo até o Chile...ou seria para Buenos Aires, de onde sigo a Montevidéo tomar um aviäo? Lo que sea.. fato é que sim, eu tenho uma vida no Brasil, e ela tem até o começo de março para começar de novo.

Coloque mais água no seu feijäo, estou chegando.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sem energias em Uyuny

(teclado obscuro novamente)

Acabei ficando uma noite mais em Sucre por ñ conseguir önibus durante a noite para Uyuny e depois até agradeci ao fato. Uyuny fica no extremo sul da Bolívia, vendo no mapa ou nas reportagens da TV parece fácil chegar aqui, mas a realidade säo dez febris horas em um microbus (que só quebrou uma vez nesta viagem) choacoalhando por uma estrada de areia, rodeada por pedras, llamas e, por veces, cruzando um riacho.

Eu já havia saído de Sucre mal. O tal do mal da Bolívia, também com sua versäo peruana, me acometeu por algum descuido. Ainda ñ sei se o que me fez tirar dois dias de descanso no hostel com febre, dor de cabeca e diarréia foi um suco de morango, em Potosí, ou um pëssego comprado e comido na rua, em La Paz.

O fato é que ñ há nada para fazer em Uyuny a ñ ser embarcar para um tour de trës dias pelo Salar. Estes dias estavam sendo necessários para repör as energias e continuar a viagem, que já bateram 20 dias.

Logo que cheguei, buscando por um hostel barato com a mochila nas costas, fui abordado por Tito, um dono de uma empresa de tours, que acabou me servindo de guia até a casa de cämbio, até a farmácia e novamente até a porta do hostel.

Um tipo sorridente e prestativo. A energia estava por acabar na cidade (só voltou há poucas horas, quase dois dias sem luz), fato comum por aqui, segundo ele. Quando contei da esbórnia de minha viagem, ele gargalhou e disse "Eso és Bolívia!". Simpático, o Tito.

Eu paro para pensar e observar por trás dos véus de preconceito com o qual baixam aqui aqueles de países melhores estabelecidos nos altares econömicos do nosso senhor capitalismo, e percebo a Bolívia como um Brasil dos anos 1980, comeco dos 90.

Tudo é ainda bastante precário. Falta luz por alguns dias em alguns lugares. A refrigeracäo de alimentos para venda é um luxo dos supermercados de Santa Cruz (isso inclui carnes e iogurtes), mas as coisas estäo mudando.

Na estrada, mesmo que empoeirada, vë -se obras por todos os lados. A telefonia já tem cobertura em todo o país (o celular é uma febre), com quatro operadoras, sendo trës privadas. Os motoristas de önibus ainda dirigem bëbados, mas a lei acaba de mudar com punicöes mais severas e polícia com bafömetros na saída dos embarques.

Passada a tempestade, amanhä cedo embarco - possivelmente em um jipe repleto de gringos europeus - para trës dias girando o deserto e sábado, uma nova aventura rumo a Tupiza, para um último adeus a Bolívia.

Já apresento sinais de saudade do feijäo com banana, jogo do Corinthians e cerveja no Torto em pleno dia de semana. Já tenho uma expectativa de data marcada, a depender de quanta plata ahorro até entrar na Argentina.

Stay in touch. Respondam meus e-mails, pra quem eu mandei.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Capital de Fato

Isso ñ devia ter no Carmen San diego, mas, Sucre, de fato, é a capital da Bolívia, segundo a constituiçäo federal e segundo o muro ali da esquina debaixo que grafa "Paceños perros" (Pacenhos cachorros)

A cidade é conhecida como a ciudad blanca. Reza a lenda que aqui caíam muitos raios, o que é sinal de mau agouro, entäo resolveram pintar todos os prédios de branco, o que te faz andar de óculos escuros o tempo todo.

Assim como Potosí, aqui é mais tranquilo, organizado e a única coisa que pode te molestar säo as crianças e adolescentes em ritmo de carnaval, que na Bolívia é festejado - além de com muita, mas muita cerveja - com água. Todo mundo anda com bexigas d´água e verdadeiras bazookas de esguicho em uma guerra de sexos: meninos contra meninas ou meninos contra turistas. Ao menos faz calor e me refresquei.

De Potosí, a cidade mais alta da Bolívia, baixei rumo ao Vale Central novamente ontem pela tarde. Deixei os cariocas para trás e segui mais uma vez sozinho pelas estradas sinuosas.
As notícias de chuvas, alagamentos e deslizamentos têm preocupado quem ficou no Brasil, mas o fato é que no máximo peguei uma lentidäo devido aos caminhöes estarem tirando pedras na pista, ontem.

Mas a culpa näo é das chuvas. Esse lado do Vale Central, oposto ao de Cochabamba, é rodeado por morros de uma formaçäo rochosa que me esqueci o nome, tampouco vou buscar na wikipedia, mas que säo como uma bolacha de água e sal, finas camadas de rocha sobrepostas e bastante frágeis.

Na beira da estrada uma placa avisava: "Atención. Formación Geologlica inestabile.", que poderia vir traduzida "See broda, we´re tryin to stop the mountain as its posible".

Machu Pichu foi um tiro no joelho de muita gente. Já perdi as contas de quantas pessoas já ouvi e contei a mesma história: "Estava iyendo a Machu Pichu, pero se rompió todo e ahora creo que voy a bajar"

Agora sentado aqui refazendo a rota e as contas, penso que a Bolívia é realmente um lugar incrível, com lindas paisagens e um povo que, se nem sempre é simpático, procura ser feliz atirando bexigas d´água enquanto amargam uma das piores economias da América do Sul.

Já diria Chico: "Mas é carnaval, ñ me diga mais quem é você. Amanhä tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar..."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Vale um Potosí

O pequeno problema que passou em Machu Pichu me chegou aos ouvidos em uma fria noite chuvosa em La Paz. Eu cheguei a cidade com a intençäo de passar duas noites, fiquei cinco. O fato é que mais uns cinco dias estaria em Cuzco.
A partir daí pelo menos 70% das pessoas que tenho conhecido pelo caminho, têm mudado os planos. Eu me decidi por nem entrar no Peru. Baixei de Copacabana para La Paz tomar um bus para Potosí no mesmo dia. Ñ deu certo e passei uma noite por lá.

Chegamos a Potosí fazia um frio do caralho. Ali já foi o coraçäo de prata da América. A cidade mais rica do continente, chegou a ter mais habitantes que Madrid e foi o único lugarejo do mundo a ter uma casa da moeda española fora do terrirório europeu.

Conta-se que com toda a prata e ouro que os espanhóis saquearam, digo, extraíram das minas de Cerro Rico - como é chamado o monte onde estäo as jazidas da regiäo - poderia se construir uma ponte ligando a Bolívia à Europa.

Tudo na vida acaba, inclusive a prata. Hoje Potosí tem pouco mais de 100 mil habitantes e um time de futebol medíocre.
As minas ainda estäo sangrando, em especial estanho e chumbo. O trabalho é feito a punho e martelo, como a cinco séculos, por mineiros com uma expectativa de vida de 40 a 50 anos, que agregam a cooperativas que vendem o minério a multinacionais, que assim sendo, nada têm a ver com as condiçöes de trabalho ali embaixo.

A realidade é pesada. O trabalho infantil é recorrente. A jornada de trabalho, regada a folhas de coca e álcool etílico potável (92%) misturado a Coca Quikoa, chega a 13 horas e a renda fica em torno de 80 bolivianos por dia.

Da herança européia ainda restou algo de bom a Potosí. uma vida cultural intensa. Teatros, cinema com estréias nacionais e um dos movimentos estudantis mais organizados da Bolívia. A boa intençäo se lê nas paredes da cidade como "Desobediência, por tua culpa serei feliz". Reza a lenda, ou os hippies de Fortaleza que encontrei na praça principal, que Potosí tem um movimento anarquista. Ñ encontrei.

Na mesma praça onde o mangueio corria solto em castellano, uma placa grafava: O povo potosíno nunca mais permitirá o saqueio de suas riquezas mineirais nem a exploraçäo de seu povo em proveito da metrópole.

"Os espanhóis säo bem-vindos, a culpa foi nossa de ter entregue o país na mäo deles sem fazer nada. Culpa dos ricos da época", respondeu Juán, que, além de compartilhar do nome de 80% da populaçäo local, também compartilha da nova posiçäo andina.



Plano de viagem: Agora em Sucre por mais dois dias. Daqui para Uyuny, visita ao Salar. Semana que vem devo estar entrando no Norte da Argentina. Uma semana e meia ali e é chegada a hora de pensar em voltar para casa. A saber se por Santiago ou Buenos Aires

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Adendum

Sobre meninas e llamas

Quando cheguei a Santa Cruz, um dos compas de viagem me aconselhou: "Aproveita para ver as mulheres bonitas aqui, porque daqui pra baixo a coisa fica feia, literalmente"

Mentira dele, à parte das argentinas de calça saruél e cabelos embaraçados (o padräo de mulher argentina na Bolívia) e as gringas vermnelhas hecho camarón, as bolivianas säo muito vaidosas, sempre maquiadas e com os cabelos arrumados.
Uma beleza exótica, eu diria. Traços indígenas se mesclam com olhos castanho claros e um sorriso bonito.
Os argentinos piramk em mulher brasileira. Dizem que as argentinas, além de serem frescas, ñ tem curvas, o que justificaria a calça saruél all the time.
Va benne, ou a Bolívia tá legal para chicas, ou meu conceito de beleza feminina anda descalibrado.

Sobre perrengues e a vida

Agustina, uma porteña de 32 anos, designer, foi minha companheira de caminhadas por La Paz nos dois últimos dias por ali. Além de me ensinar algumas gírias em español, me fez refletir sobre a vida, sentados numa mureta vendo a Feria de las Alasitas.

*Adendum: A Feria das Alasitas é uma mega feira paceña que vende de tudo em miniatura, desde as Alasitas, que säo bonecos de cerâmica, onde se pendura tudo o que se quer ter (carros, casa, viagem, comida), até sofás, chaleiras e etceteras.

Falávamos sobre os caminhos da vida. Ela separou do namorado de muitos anos porque um lindo dia descobriu que o sonho de ter filhos era dele e ñ dela e que ela faria por ele. Not good. Voltou a morar com os pais e se sente um pouco aflita por trabalhar de freela e só ter comprado para si um computador.
Minha história é parecida, mas eu comprei uma bicicleta. Filho nenhum no mundo substitui uma bicicleta.
Agustina voltou na noite seguinte, pensando em comprar uma magrela.

Eu saí do Brasil com muito medo de "encontrar a mim mesmo" durante um dia de solidäo e paisagem bonita. A única coisa em que penso nesses momentos é se devo seguir de Potosí a Sucre ou de Potosí a Uyuny. Acho que acabei encontrando um cara que sacou o lado bom da vida.

Marco, o brasileiro que conheci em Quijarro, aportou por La Paz no dia em que eu partiria. Além de ñ trazer meias, capa de chuva, cobertor, protetor solar e pasta de dentes, achou que ñ precisava desbloquear o cartäo para sacar grana fora do país. Transferiu o dinheiro para minha conta e eu saquei a uma cotaçäo um pouco menor. Ficou achando que o roubei e foi com seiscentos mangos para Lima ver a namoradinha. Ñ faço idéia de como ele pretende voltar para casa.

Eu lembrei de trazer tudo, menos o cabo da máquina e um pen drive, que devem ter ficado sobre a mesa de casa. Consegui comprar um. O canivete suíço que estava quebrando o galho na abertura de latas, corte de maçäs e afins, foi dado como morto após uma intensa busca em todas as malas. Creio que ficou na mesa do hostel depois de ter aberto o vinho boliviano que me deixou com dor de cabeça. Foi em paz, mas vai fazer falta.



Antes era diferente...

Para chegar até a Ilha do Sol, um barquinho te leva por umas três horas por entre as montanhas e as águas fodidamente azuis do Titicaca. Eu acho que já disse como é grande, mas o fato é que em alguns trechos ñ se via a outra margem.
Chegamos lá e nada de hostel barato. Os argentinos decidiram ficar em barracas. Era free, ñ tinha banheiro nem ducha, mas era free!

Um pouco relutante pelo montante de granizo do dia anterior, embarquei na trip. Ainda no bote conhecemos Damián, um argentino de La Plata, capital da província de Buenos Aires, há dois meses viajando, rumo â Amazônia e, quiçá, México. Um cara boa pinta, falando täo rápido que nem os outros argentinos o entendiam. Damián agregou no nosso acampamento.

Dezenas de barracas se espalhavam pela areia. Um psicodália â boliviana, com malabares, fogueira com tambores e argentinas despenteadas. Pela tarde fazia calor, sol de rachar e â noite, dormíamos com duas blusas, dentro de um saco de dormir, com frio.

Da parte norte, onde estávamos, até a sul, säo 10km de caminhada sobre as montanhas, 3h30, que fiz bufando, mas valeu a pena. Para voltar tomei um barco e conheci Paulo e Nicole, dois brasileiros, ele gaúcho de Porto Alegre, estudando no Rio. Ela, carioca da gema, filha de atriz e estudante de teatro, que também agregaram nosso acampamento. Enfim português.

Faminto, fui comprar bananas e bolachas em um tienda, pequenas vendas que oferecem desde banana e päo até Snickers e Lays, com preço para gringo. Ali encontrei Sêo Augustín, à porta dos seus 70 anos, nascido e criado na Isla del Sol, bisneto de incas.

"Antes era melhor, vivíamos da agriucultura, depois da pesca, mas hoje, com o lago contaminado o pescado sumiu e começamos a viver do turismo", disse, com o olhar perdido na margem peruana.

O Titicaca era refúgio sagrado dos incas, que rasgaram os morros com plataformas para o plantio de batata e milho - base alimentar da Bolívia e Peru até hoje - e dali sacavam tambèm o pescado.

O problema, me contou Sêo Augustìn, è que mineradoras e cidades peruanas começaram a despejar seus resíduos no lago e, para contribuir com o estrago, a poça d´água virou uma hidrovia, cortada por balsas, cargueiros e iates para gringos.

"Meus avós atravessavam em totoras, meus pais em bote de madeira e hoje olha aí", disse apontando com o nariz o pequeno píer por onde desembarcamos.

A vida na ilha é uma mescla de bicho grilos acampados na areia por onde as famílias passam com seus porcos, vacas e ovelhas ao fim do dia, recolhendo os bichos das pastagens do alto dos morros.

As coisas ñ säo mais as mesmas para Sêo Augustín. Os turistas trouxeram lixo plástico, Snickers e barcos â diesel, mas que fique tranquilo, ninguém vai lhe roubar a lua cheia mais linda que vi em toda minha existência. Suerte, señor!

Nas areias de Copacabana

Arranho em tinta a décima segunda página da agenda de viagem. Rumo â Copacabana em um önibus em condiçöes suspeitas.
A viagem é relinda, o Titicaca é um dos maiores lagos do mundo (ñ esqueçamos do Nesse e do Michigan) e o mais alto. Fica a uns 3.900m, o que te faz cansar até para falar.

Viajar sozinho näo significa viajar sozinho. Na ida para Copacabana todo mundo desce do micro, ele passa em uma balsa e os passageiros got a shake em um barquinho por cinco minutos.
Ali conheci Milagros, Camila, Lucía e Gaspar. Porteños da gema, indo para a Isla del Sol, que até entäo eu ignorava a existência. Papo vai e vem, nos quedamos amigos e procuramos juntos o pior hotel da cidade.
Meu quarto de Bs15 fedia galinha molhada - o que me animou a deixar escrito na parede "Este quarto fede bgalinha molhada", em três línguas, para que ficasse dado o recado - e o banheiro ñ era lá o do Copacabana Palace, mas com o tempo a gente vai perdendo a noçäo de higiene e se espanta qdo tem guardanapo na mesa do bar.

Säo doze dias de viagem e acho que aprendi mais sobre a Argentina do que sobre a Bolívia. Gaspar faz parte de um partido de extrema-esquerda-per-no-mucho, um análogo do PSol. Sentado ali vendo o lago (maior que o Paranazäo), comendo päo com palta e tomate, me explicava que o Peronismo foi o que atrasou a Argentina e que näo existem pequenos agricultores por lá: ou se planta muito, ou se trabalha para quem planta muito.

 noite combinamos de subir o mirador que tem na cidade. Copacabana ñ tem muito a oferecer: uma igreja com entalhes de incas carregando uma N.Sra de sei lá o que, como se estivessem refelices por serem brutalmente catequizados e saqueados e um mirador, de onde se vê os picos nevados do Andes.

Minutos antes de irmos para a calle, uma chuva de granizo começou a cair e ñ parou mais, uma meia hora suficiente para deixar tudo branco como neve e nos deixar na janela arremessando pelotas de gelo no hotel da frente.

Pela manhä, assim que a outra chuva passou, embarcamos para a Isla del Sol, no coraçäo do mal tratado Titicaca.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A El Alto e avante!

Pensar que o veräo é quente em toda a América do sul é um erro que te custa ñ muito caro. Säo sete bolivianos no par de meias compridas e uns 40 em uma calca hippie de algodäo.
La Paz fica a quase 4.000m de altitude. com sol, fica entre 17ºC e 20ºC. A noite, com chuva, a coisa cai para perto de sete graus e todo mundo se amontoa em um sofá velho tomando mate dos argentinos ver se o frio passa.
Se abrigar ñ ajuda muito. Hay que dormir dentro do saco de dormir embaixo dos cobertores.

Apesar deste pesares, La Paz é encantadora. O tränsito, como toda a Bolívia, é caótico e o transporte é feito principalmente em vans pequenas, que passam com um guri com a cabeca para fora gritando o destino muito rápido. Um versäo fast foward do carro do sonho.

La Paz fica logo depois de El Alto, um ciudadela na meseta do Altiplano, mais alto do que La Paz.
El Alto é uma das cidades que mais cresceu na América Latina nos últimos dez anos. Soma hoje mais de 800 mil habitantes e é o destino certo de todo exödo rural da Bolívia e capital dos sonhos de peruanos desempregados.

Estes fatores tornou El Alto uma 25 de marco a cada esquina. Hoje fomos a Feria del Alto, onde se vende desde meias (a sete pesos negociando) até frentes de carro japonës. A base da economia por ali é esse micromercado de isso e aquilo.

Amanhä vou a Copacaban, as margens do Titicaca, curtir um por do sol e, certamente, mais mate argentino.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Cochabamba - La Paz em alto astral

Cristina tem 53 anos, boliviana de La Paz, trabalha como voluntária em um grupo de apoio a famílias de alcolistas, acredita que algo superior rege nossa vida e se chama Cristina por ter nascido no Corpus Cristhi.
Mirando as lindas paisagens do Vale Central, debate sobre como é difícil ter compaixäo por quem faz mal e conta histórias de como ajudou uma amiga que teve problemas com o filho. Ele matou e esquartejou uma garota. "Yo pensé que podría ser mi hijo. La llamé e dice: Estoy contigo e solo que debes tener por tu hijo ahora és amor".
A palavra amor, conta ela,no dicionário se explica como fazer o bem incondicionalmente. Cristina carrega dúzias de marcadores de livros e cartöes postais do similar boliviano do Smilinguido. "Para mi lo mismo, tengo la edad de tu mamá y por ahorita voy a ser tu mamá", me disse enquanto rompíamos com as mäos um saco de nozes para comer com passas. "Hace bien a tu celebro"

Emiliano se chama assim porque a su mamá la gustava mucho Zapata. Tem 28 anos, estudou geologia mas abandonou para fazer design. Juntou uma grana e resolveu viajar com duas amigas.
Como todo o hostel é argentino. Crê que, apesar dos pesares, o primeiro governo de Kirchner mudou muita coisa na Argentina e Cavallo "aun que tenga hecho mierda, despertó el pueblo argentino para lutar por sus derechos", me disse tremendo um pouco enquanto visitávamos o Valle de La Luna, uma versäo paceña de Vila Velha. Ñ gosta de fernet.

Josephine é alemä, tem duas esmeraldas postas no lugar dos olhos, terminou o segundo grau, botou a mochila nas costas e só vai pensar na faculdade quando voltar a Berlim. Le encanta Brasil, pero - como toda gente aqui que tem evitado viajar pelo Brasil - crê que é muito caro viajar por lá. Prefere conchignoli a espaguetti.

Sofia namora Francisco, leva o mesmo nome de minha avó, a ella le encanta Regina, a Elis e näo acreditou muito na história de que tenho um EP autografado em casa. Gostam de rock argentino e guardaram com carinho a lista de bandas brasileiras que fiz em um papel laminado de cigarro.

Ricardo é jornalista. Ficou encantado quando ouviu que é o primeiro brasileiro que sabe falar español. Se chateou um pouco por ñ poder chegar a Machu Pichu, mas acredita que isso é um bom motivo para viajar de novo. Dessa vez vai levar seu pai. Ñ tem muita saudades de casa e se assustou com os fetos secos de llama. Machucou sua boca mascando coca, por ñ retirou os cabinhos da folha. Tem 25 anos e orgulho de ser latino-americano

Uma breve reflexäo sobre política

Funciona assim, todo mundo ama o Evo, menos Santa Cruz.

A política instaurada por ele, chamada de El Cambio, realmente modificou muita coisa na Bolívia. As comunidades mais pobres, que vivem nas encostas do Altiplano e Vale Central agora tem água potável encanada, um sistema de esgoto e terra para plantar.

A estatizacäo do gás gerou uma riqueza para o país e o colocou no centro de toda as negociacöes na América do Sul e o Pacto Andino promete transformar países que antes foram quintal do mundo em potências de segunda ordem.

Por las calles de La Paz ou no sinuoso caminho de Cochabamba até aqui se vê pichacöes como "Mi presidente se quedó" ou adesivos no posto de imigracäo "Evo cumple, Bolívia cambia".

Da señora classe média com o filho trabalhando na Itália, até o traficante com camiseta nacionalista na Plaza San Francisco, todos dizem que a vergonha de antes dizer que eram indígenas, se converteu em um orgulho enorme de dizer que é parte de um país que hoje se chama República Plurinacional de Bolívia

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sem sorte para ônibus

Nos despedimos todos na rodoviária, uns para um lado, outros para outro.

Embarquei às 21h rumo à Cochabamba, uma viagem de umas dez horas. Sentei confortavelmente no meu banco, apertei o botäozinho para reclinar e pimba! O botäo estava travado. A cada vez que o ônibus acelerava, eu deitava. Se freiava, 90 graus.

Näo consegui acreditar naminha falta de sorte com ônibus. Fui até a cabine do motorista:

- Permiso, señor. Mi asiento está rompido
- No, no, no
- ¿Cómo? No compreendí
- No, no, no, meneou o hijoputa mais de três vezes.

O fato é que poucas pessoas, principalmente do comércio, säo o que poderíamos chamar de cordiais com extranjeros. Você entra, compra, paga e eles te däo o troco. Näo se troca uma palavra.

Bajé por Cochabamba às sete da matina. Tomei um táxi até o Residenciales que deveria ficar. Näo havia vagas. Somente um quarto para duas pessoas com baño provado, a 80Bs. Isso é realmente caro, em média se paga 20 a 40Bs por um quarto.

Foi difícil näo chorar. Caia uma chuva e estava muito frio. Eu desci do ônibus de chinelo e moletom, sem tomar banho a um dia e usando a mesma camiseta a três. Vendo minha cara de desespero o cara do hostel me quebrou um galho e me fez 50Bs por aquele quarto. Tendo em vista que 40 era o preco do individual sem banheiro, muy bueno. (pena ñ ter mochileiros hospedados ali, acabei rodando a cidade solito)

Quando subi ao quarto meu coracäo parou. Chuveiro quente. Chuveiro quente.

A água é um problema gravíssimo na Bolívia. Foi aqui em Cochabamba que, em 2000, uma verdadeira guerra se instalou nas ruas. A populacäo de um dos países mais pobres da América Latina foi às ruas quebrando tudo e enfrentando a polícia, na chamada Guerra da Água.

Em 1999, o governo boliviano tomou um empréstimo milionário do Banco Mundial, paraexpansäo do sistema de água, sob a condicäo de que este fosse privatizado após as obras.

Em uma licitacäo de um concorrente só, a californiana Bechtel arrendou a distribuicäo e tratamento das águas de Cochabamba e aumentou os precos em até 200%. A populacäo foi às ruas, quase destruiu Cochabamba inteira e conseguiu reverter o processo de privatizacäo.

Muitos hostels cobram pelo banho quente. Em cidades mais pobres, se querés tomar mais de um banho al día, tem que pagar.

Assim como Santa Cruz, em Cochabamba ñ há muito o que ver, alémn de um Cristo (maior que o carioca), onde se sobe te teleférico e dá de cara com uma pintura no muro "Perigo: Evite ser vítima de deliquentes, näo desca pelas escadas". Ok, conselho seguido, até porque o tal do soroche (mal de altitude) me deixou cansado. Duzentos metros pareciam dois quilômetros, mas passou rápido, sem problemas.

Dos pés do Cristo a vista é linda. Cochabamba fica no meio de um vale, com montanhas altíssimas, enfim, os Andes.

A Feria de la Cancha é um mundo à parte. Botei a mochila nas costas e com meu ridículo senso de direcäo, rodei em círculos até achar aquela profusäo de cores, aromas (nunca bons) e gente. Écomo uma 25 de marco do terceiro mundo.

Lá se vende desde implante de trancas, dvds piratas, frutas e celulares, até frango à céu aberto, cortado ali mesmo, com as mäos.

Botar a mäo na comida é um costume local. Os indígenas sempre carregam um saquinho com arroz e frango. No ônibus ñ têm dúvida, abrem a sacolinha e mandam com a mäo para dentro, passando para o próximo da família.

Devo cair para La Paz amanhä mesmo. Saio do quarto, deixo as mochilas na recepcäo e volto para pegar no fim da tarde. Dá tempo de aproveitar o Centro Histórico,que estava fechado hoje e pegar o ônibus no final de tarde, chegando pela manhä na capital e, aí sim, sofrer com o soroche.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Santa Cruz ñ é a Bolívia

Santa Cruz é uma das cidades mais ricas da Bolívia, se ñ a mais rica. Por aqui se concentra toda a producao industrial - ainda que minúscula - gás e agricultura (desculpem a digitacao, esse teclado ñ tem til, tampouco funciona a cedilha). Aqui definitivamente ñ é a Bolívia.

Neste país ñ existe classe média. Raro encontrar uma casa mais simples ou um carro em média condicoes, ou se tem um carro vindo de segunda mao do Japao ou se tem um Hummer, uma Pajero do modelo 2009 e se mora em uma mansao em um bairro bom.

Ao redor da Praca 24 de mayo, algumas lojas vendem Armani, Arezzo, Nike. E no canteiro central Avenida Cañoto, as cholas e toda gente indígena se acotovela em algo que parece um brechó a céu aberto.

O transito boliviano é um caso a (crase) parte. Ñ existe ponto de önibus, basta estender a mâo onde quer que esteja e ele para. Para descer, nada de sineta ou botäozinho, se grita Paré por favor e desce ali mesmo, seja em que faixa da avenida vocë esteja.

Semáforos säo raríssimos, preferencial ñ existe, o que torna as ruas um buzinaco maior que Curitiba.

A regra número um da sobrevivëncia na Bolívia é: Ñ crie expectativas. Hoje caminhamos mais de duas horas na direcäo errada procurando os restaurantes de frutos do mar a (crase) beira do Rio Piraí.

O Porto Madero boliviano é uma rua de terra, com carros indo e voltando, cavalos, gente vendendo de tudo e zilhöes de restaurantes half mouth pra caralho. A regra número dois também deve ser seguida a risca: Esqueca tudo o que sua mäe lhe ensinou sobre higiene. Se aparecer um cabelo na sua quesadilla, simplesmente retire e coma, poderia ser um inseto.

Aguardo o micro para ir até Cochabamba. O Marco, brasileiro, vai também, em outro horário e em um önibus precário. Os porteños sobem até Trinidad para entrar na Amazönia boliviana.

Na mochilagem as amizades duram algumas hoiras, quicá dias. Se anda pra caralho na direcäo errada e ainda fica dois dias usando a mesma camiseta, com o pé no chinelo preto de tanta terra.

Onze horas até Cochabamba, capital do distrito de mesmo nome e 2.700m arriba, vou aclimatar por lá antes de ir para La Paz. Mais um önibus de la muerte? A ver chico

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

El omnibus de la muerte

Se ñ pegamos o trem da morte, fizemos uma longa viagem no seu similar de rodas.

O bumba partiu cheio, muita criança chorando, uma previsäo de 17h de viagem e nenhum banheiro.

Eu comecei super positivo, a estrada era boa, o visual de pôr-do-sol era lindo e, apesar de ñ ter ar condicionado, poltronas reclináveis, luz de leitura e apoio para os pés; as janelas abriam bastante.

Ficamos eu e o Marco, um paulistano estudante de filosofia que viajava com uma mala menor que minha mochila de ir para o colégio e ñ tinha levado meias, tampouco pasta de dentes. No máximo duas horas de viagem e já fizemos nossa primeira parada.

"Hora daquela mijada", pensei.

- Pätz, quebrou o ônibus, disse Marco

- Relaxa e aproveita o visual, retruquei positivo como a Madre Teresa

De repente uma fumaça branca começa a tomar conta do interior do ônibus e todo mundo se protege como pode. O motorista e algum metido a ajudante abriram a tampa do motor e começaram a acelerar para que alguma peça voltasse a fazer o que deveria.

Descemos do önibus esticar as pernas e o Marco fumar um cigarro.

- Puta merda, isso é fita crepe?, perguntei eu quando ouvi o barulho tìpico.
- É. Puta que pariu, riu Marco.
- Pergunta là que pása?

- Que pása señor?
- No pasa nada

Depois de mais alguns minutos volvemos ao ônibus, antes de mais quatro paradas como essa.
Nem eu sei como, mas mantive o bom humor e paciência até a décima segunda hora de viagem.

Paramos para jantar, o céu estava incrível, quase ñ tem poluiçäo luminosa, ao contrário do Brasil, aqui se viaja muitas horas sem ver nada nas margens da estrada, nem um casebre de fazenda, nem cidade. Os bois estäo sempre ali, na porteira, esperando alguém abrir e o önibus frear, mas luzes, nada.

Nossa cena foi arroz, macarräo, batatas fritas caseiras e salada de tomate. Näo se usava talher, com as mäos devidamente protegidas por luvas cirúrgicas, as mulheres arremessavam bocados disso e daquilo no seu prato.

Mais umas cinco horas de viagem, eu acordado e Marco desperta assustado. "Onde a gente tà? Que isso?"

- Acabou a estrada, cara
- Como assim acabou a estrada?
- Pô sei lá, tinha uma cerca de madeira no meio da estrada e aí a gente entrou nesse desvio aqui.

Dez minutos após a explicaçäo, nova parada para fita crepe.

De tudo o que posso dizer dessa viagem é que eu estava errado. Deus existe, ele é forte e salava. Pensei muito nisso qdo nosso ônibus choacoalhava em uma estrada de terra, a poucos metros de um buraco imenso onde estavam fundando uma ponte. Eu rezei muito e estou aqui.

Chegamos em Santa Cruz às 9h da matina, pegamos um táxi até a praça principal e achamos um hostel barato e aconchegante, apesar de ñ ter ventilador...o que faz muita diferença aqui.

Santa Cruz é uma cidade rica, com um centro histórico, prédios do governo e pichaçöes de "Evo Asesino Instucional" por todos os lado e bandeiras verde e brancas nas portas dos edifícios.

Ñ há muito o que se ver por aqui. É um ponto de conexäo.
Amanhä sigo para Cochabamba me aclimatar com a altitude e seguir para La Paz.

Ariel e Luis seguem para Trinidad, onde continuam sua viagem para cruzar a Amèrica do Sul por rios, do Prata atè o Orinoco e o Marco deve comprar umas meias e partir para Sucre.

Amanhä é un nuevo dia, por ora vou andar atrás de algo para comer, sem pollo.

Quijarro ou Onde os fracos näo tem vez

Quando apiortei na fronteira, a Migra estava fechada. O trânsito de carros por ali ñ é controlado, nada é controlado. Se quiseres passar com uma bazooka no colo do motorista, com a ponta para fora da janela, talvez só tenha problemas se ñ tiver nota fiscal.

enquanto esperava encontrei um casal de holandeses. Ela psicòloga, ele engenheiro aeronáutico, pediram licença e estäo na estrada há sete meses, vinham da Venezuela e a conversa me rendeu boas dicas de onde ir, o que ñ fazer.
Mais algumas meia-hotinhas (ninguém sabia se abria às 14h brasileiras ou bolivianas) chegaram dois porteños, com osotaque mais porteño que já ouvi na vida. Um deles tinha estado na casa de parentes em Curitiba dias antes.

Mais boas horinhas, carimbo, vacuna, treinta dias.

Subi em um táxi com os argentinos (os holandeses estavam entrando no Brasil)e fomos até Quijarro, onde tive a primeira impressäo do que é a Bolívia.

Jà tinha ouvido muito falar em choque cultural, mas sempre achei papo de sociòlogo ou o mal que acomete as cinturas dos europeus no carnaval carioca.

Enfim, como o taxista argentino também, e muito louco, havia nos alertado, ñ conseguimos passagem para o trem daquele dia. Na fila, frustrados, encontramos um maluco que o uns 15 minutos depois fui perceber q ñ se dava muito bem com o espanhol e era brasileiro..cara de gringo.

Todos estávamos chocados com Porto Quijarro e queríamos sair muito rápido dali e aceitamos o ônibus, que era mais barato e rápido que o tren. Minto, que era supostamente mais rápido que o trem.

A melhor definiçäo de choque cultural me iluminou os olhos quando, já de passagens compradas, mirávamos embasbacados a paisagem da cidade. Ruas de terra, com poeira em tudo e carros japoneses caindo aos pedaços buzinando e abrindo espaço.

O Ariel, um dos porteños foi perguntar pelo banheiro e a garota que cuidava do suposto bar lhe perguntou porque. Meio encabulado ele respondeu em outras palavras e ela respondeu sem meio termo.

- No, no, hace por la calle mismo

Foi ali, com a Ariel mijando no mato ao lado da mesa, um guri completamente imundo brincando no chäo do bar, um caminhäo com letreiro japonês, aquela poeira toda se estendendo por onde a vista alcançava que entendi o que é choque cultural.

As cervejas se quedarón vazias e descemos até a suposta rodoviária, contrariando os conselhos de todo mundo que já andou naquele ônibus...

Campo Crescente

Após umas boas horas na sala de embarque do Afonso Pena, lendo uma recém-comprada ediçäo de Fábulos de Esopo, embarquei enganadamente rumo a Campo Grande. O horàrio de saída era 18:15, o de chegada 18:45..o que significava uma hora e meia de voo, já que tem o fuso. Foi uma hora a mais de Simpsons no iPod.

Campo Grande è uma capital muito acolhedora. Tem aquele ar acolhedor típico das cidades pequenas: bares com cover de sertanejo no teclado, gente que te dá boa noite e te oferece um cafezinho.

Segundo meus ciccerones, a cidade está em plena expansäo. Tem obra para todos os lado e Campo Grande vai, aos poucos, se verticalizando. Ali também fica a segundfa maior resreva natural em área urbana do mundo, perdendo apenas para o Central Park. Confesso que é grande pra caralho.

Tanto que a sede do governo, os gabinetes e etceteras säo no interior dessa mata rodeados de verde e com placas alertando: Quem voa é passarinho, dirija devagar. Respeite nossos animais.

Segundo me contaram é bastante comum alguém transformar um quati em tapete.

Na quinta-feira logo cedo, embarcava rumo a Corumbá, seis horas de viagem pelo Pantanal, com direito a ver tucano voando. Dali eu atravessaria rumo a Quijarro...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Digo bóra

Por que caralhos escrever um blog sobre uma viagem pela América do Sul. Me parece bem mais fácil depois de todo esse rolet, me sentar à mesa com bons amigos e contar todas as desventuras.
Mas o fato é que nasci jornalista, fui parido prematuro em uma universidade half mouth e tenho o anseio de contar e acrescentar qualquer coisa que valha.

Parto hoje para Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Fica em qualquer lugar entre o Pantanal e intermináveis plantações de soja. Vou voando para economizar horas de viagem e de lá adentro a Bolívia, na separatista Santa Cruz de La Sierra e de lá para o Altiplano e por onde mais valha andar.

Mas por que caralhos viajar? Deixo para trás nenhum emprego, um namoro que achei que duraria dez séculos mas não passou de quatro meses, pais preocupados com um pequeno problema psicológico que me acomete e uma dezena de bons amigos que consegui esse ano.

Dois mil e nove certamente foi o pior ano de minha vida. Só perdas: emprego, namoros, relação com a família, saúde, uma italiana de olhos verdes que me viu nascer e certamente a paciência. Começar o ano fazendo algo legal me vale.

Já diria Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: Alguns países se especializam em perder e ganhar. A América Latina foi precoce, se especializou em perder desde os tempos em que os primeiros audazes do Renascimento se lançaram ao mar e quanto mais séculos passaram continuamos a ser bons nisso.

Paixões à parte, a América do Sul passou por uma pequena guinada à esquerda na última década. Bolívia, Venezuela, Equador, Brasil e Chile emergiram com presidentes socialistas e políticas econômicas nacionalistas e se impuseram como emergentes de fato.

O Pré-Sal é nosso, o gás é da Bolívia, o petróleo é da Venezuela. Estamos nos especializando em mandar os colonizadores de volta para casa (ou abrirem novas fronteiras na África)

Descobrir o que se passa nos vizinhos certamente vai acrescentar muito ao sangue latino-americano que sempre honrei. Europa a casa do cacete. Sudamerica, aí vou eu.


**Me comprometi comigo mesmo a zerar as emissões de carbono geradas durante a viagem, usando o cálculo da Iniciativa Verde, baseado em distâncias que percorri de avião e ônibus.