Pensar que o veräo é quente em toda a América do sul é um erro que te custa ñ muito caro. Säo sete bolivianos no par de meias compridas e uns 40 em uma calca hippie de algodäo.
La Paz fica a quase 4.000m de altitude. com sol, fica entre 17ºC e 20ºC. A noite, com chuva, a coisa cai para perto de sete graus e todo mundo se amontoa em um sofá velho tomando mate dos argentinos ver se o frio passa.
Se abrigar ñ ajuda muito. Hay que dormir dentro do saco de dormir embaixo dos cobertores.
Apesar deste pesares, La Paz é encantadora. O tränsito, como toda a Bolívia, é caótico e o transporte é feito principalmente em vans pequenas, que passam com um guri com a cabeca para fora gritando o destino muito rápido. Um versäo fast foward do carro do sonho.
La Paz fica logo depois de El Alto, um ciudadela na meseta do Altiplano, mais alto do que La Paz.
El Alto é uma das cidades que mais cresceu na América Latina nos últimos dez anos. Soma hoje mais de 800 mil habitantes e é o destino certo de todo exödo rural da Bolívia e capital dos sonhos de peruanos desempregados.
Estes fatores tornou El Alto uma 25 de marco a cada esquina. Hoje fomos a Feria del Alto, onde se vende desde meias (a sete pesos negociando) até frentes de carro japonës. A base da economia por ali é esse micromercado de isso e aquilo.
Amanhä vou a Copacaban, as margens do Titicaca, curtir um por do sol e, certamente, mais mate argentino.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Cochabamba - La Paz em alto astral
Cristina tem 53 anos, boliviana de La Paz, trabalha como voluntária em um grupo de apoio a famílias de alcolistas, acredita que algo superior rege nossa vida e se chama Cristina por ter nascido no Corpus Cristhi.
Mirando as lindas paisagens do Vale Central, debate sobre como é difícil ter compaixäo por quem faz mal e conta histórias de como ajudou uma amiga que teve problemas com o filho. Ele matou e esquartejou uma garota. "Yo pensé que podría ser mi hijo. La llamé e dice: Estoy contigo e solo que debes tener por tu hijo ahora és amor".
A palavra amor, conta ela,no dicionário se explica como fazer o bem incondicionalmente. Cristina carrega dúzias de marcadores de livros e cartöes postais do similar boliviano do Smilinguido. "Para mi lo mismo, tengo la edad de tu mamá y por ahorita voy a ser tu mamá", me disse enquanto rompíamos com as mäos um saco de nozes para comer com passas. "Hace bien a tu celebro"
Emiliano se chama assim porque a su mamá la gustava mucho Zapata. Tem 28 anos, estudou geologia mas abandonou para fazer design. Juntou uma grana e resolveu viajar com duas amigas.
Como todo o hostel é argentino. Crê que, apesar dos pesares, o primeiro governo de Kirchner mudou muita coisa na Argentina e Cavallo "aun que tenga hecho mierda, despertó el pueblo argentino para lutar por sus derechos", me disse tremendo um pouco enquanto visitávamos o Valle de La Luna, uma versäo paceña de Vila Velha. Ñ gosta de fernet.
Josephine é alemä, tem duas esmeraldas postas no lugar dos olhos, terminou o segundo grau, botou a mochila nas costas e só vai pensar na faculdade quando voltar a Berlim. Le encanta Brasil, pero - como toda gente aqui que tem evitado viajar pelo Brasil - crê que é muito caro viajar por lá. Prefere conchignoli a espaguetti.
Sofia namora Francisco, leva o mesmo nome de minha avó, a ella le encanta Regina, a Elis e näo acreditou muito na história de que tenho um EP autografado em casa. Gostam de rock argentino e guardaram com carinho a lista de bandas brasileiras que fiz em um papel laminado de cigarro.
Ricardo é jornalista. Ficou encantado quando ouviu que é o primeiro brasileiro que sabe falar español. Se chateou um pouco por ñ poder chegar a Machu Pichu, mas acredita que isso é um bom motivo para viajar de novo. Dessa vez vai levar seu pai. Ñ tem muita saudades de casa e se assustou com os fetos secos de llama. Machucou sua boca mascando coca, por ñ retirou os cabinhos da folha. Tem 25 anos e orgulho de ser latino-americano
Mirando as lindas paisagens do Vale Central, debate sobre como é difícil ter compaixäo por quem faz mal e conta histórias de como ajudou uma amiga que teve problemas com o filho. Ele matou e esquartejou uma garota. "Yo pensé que podría ser mi hijo. La llamé e dice: Estoy contigo e solo que debes tener por tu hijo ahora és amor".
A palavra amor, conta ela,no dicionário se explica como fazer o bem incondicionalmente. Cristina carrega dúzias de marcadores de livros e cartöes postais do similar boliviano do Smilinguido. "Para mi lo mismo, tengo la edad de tu mamá y por ahorita voy a ser tu mamá", me disse enquanto rompíamos com as mäos um saco de nozes para comer com passas. "Hace bien a tu celebro"
Emiliano se chama assim porque a su mamá la gustava mucho Zapata. Tem 28 anos, estudou geologia mas abandonou para fazer design. Juntou uma grana e resolveu viajar com duas amigas.
Como todo o hostel é argentino. Crê que, apesar dos pesares, o primeiro governo de Kirchner mudou muita coisa na Argentina e Cavallo "aun que tenga hecho mierda, despertó el pueblo argentino para lutar por sus derechos", me disse tremendo um pouco enquanto visitávamos o Valle de La Luna, uma versäo paceña de Vila Velha. Ñ gosta de fernet.
Josephine é alemä, tem duas esmeraldas postas no lugar dos olhos, terminou o segundo grau, botou a mochila nas costas e só vai pensar na faculdade quando voltar a Berlim. Le encanta Brasil, pero - como toda gente aqui que tem evitado viajar pelo Brasil - crê que é muito caro viajar por lá. Prefere conchignoli a espaguetti.
Sofia namora Francisco, leva o mesmo nome de minha avó, a ella le encanta Regina, a Elis e näo acreditou muito na história de que tenho um EP autografado em casa. Gostam de rock argentino e guardaram com carinho a lista de bandas brasileiras que fiz em um papel laminado de cigarro.
Ricardo é jornalista. Ficou encantado quando ouviu que é o primeiro brasileiro que sabe falar español. Se chateou um pouco por ñ poder chegar a Machu Pichu, mas acredita que isso é um bom motivo para viajar de novo. Dessa vez vai levar seu pai. Ñ tem muita saudades de casa e se assustou com os fetos secos de llama. Machucou sua boca mascando coca, por ñ retirou os cabinhos da folha. Tem 25 anos e orgulho de ser latino-americano
Uma breve reflexäo sobre política
Funciona assim, todo mundo ama o Evo, menos Santa Cruz.
A política instaurada por ele, chamada de El Cambio, realmente modificou muita coisa na Bolívia. As comunidades mais pobres, que vivem nas encostas do Altiplano e Vale Central agora tem água potável encanada, um sistema de esgoto e terra para plantar.
A estatizacäo do gás gerou uma riqueza para o país e o colocou no centro de toda as negociacöes na América do Sul e o Pacto Andino promete transformar países que antes foram quintal do mundo em potências de segunda ordem.
Por las calles de La Paz ou no sinuoso caminho de Cochabamba até aqui se vê pichacöes como "Mi presidente se quedó" ou adesivos no posto de imigracäo "Evo cumple, Bolívia cambia".
Da señora classe média com o filho trabalhando na Itália, até o traficante com camiseta nacionalista na Plaza San Francisco, todos dizem que a vergonha de antes dizer que eram indígenas, se converteu em um orgulho enorme de dizer que é parte de um país que hoje se chama República Plurinacional de Bolívia
A política instaurada por ele, chamada de El Cambio, realmente modificou muita coisa na Bolívia. As comunidades mais pobres, que vivem nas encostas do Altiplano e Vale Central agora tem água potável encanada, um sistema de esgoto e terra para plantar.
A estatizacäo do gás gerou uma riqueza para o país e o colocou no centro de toda as negociacöes na América do Sul e o Pacto Andino promete transformar países que antes foram quintal do mundo em potências de segunda ordem.
Por las calles de La Paz ou no sinuoso caminho de Cochabamba até aqui se vê pichacöes como "Mi presidente se quedó" ou adesivos no posto de imigracäo "Evo cumple, Bolívia cambia".
Da señora classe média com o filho trabalhando na Itália, até o traficante com camiseta nacionalista na Plaza San Francisco, todos dizem que a vergonha de antes dizer que eram indígenas, se converteu em um orgulho enorme de dizer que é parte de um país que hoje se chama República Plurinacional de Bolívia
domingo, 24 de janeiro de 2010
Sem sorte para ônibus
Nos despedimos todos na rodoviária, uns para um lado, outros para outro.
Embarquei às 21h rumo à Cochabamba, uma viagem de umas dez horas. Sentei confortavelmente no meu banco, apertei o botäozinho para reclinar e pimba! O botäo estava travado. A cada vez que o ônibus acelerava, eu deitava. Se freiava, 90 graus.
Näo consegui acreditar naminha falta de sorte com ônibus. Fui até a cabine do motorista:
- Permiso, señor. Mi asiento está rompido
- No, no, no
- ¿Cómo? No compreendí
- No, no, no, meneou o hijoputa mais de três vezes.
O fato é que poucas pessoas, principalmente do comércio, säo o que poderíamos chamar de cordiais com extranjeros. Você entra, compra, paga e eles te däo o troco. Näo se troca uma palavra.
Bajé por Cochabamba às sete da matina. Tomei um táxi até o Residenciales que deveria ficar. Näo havia vagas. Somente um quarto para duas pessoas com baño provado, a 80Bs. Isso é realmente caro, em média se paga 20 a 40Bs por um quarto.
Foi difícil näo chorar. Caia uma chuva e estava muito frio. Eu desci do ônibus de chinelo e moletom, sem tomar banho a um dia e usando a mesma camiseta a três. Vendo minha cara de desespero o cara do hostel me quebrou um galho e me fez 50Bs por aquele quarto. Tendo em vista que 40 era o preco do individual sem banheiro, muy bueno. (pena ñ ter mochileiros hospedados ali, acabei rodando a cidade solito)
Quando subi ao quarto meu coracäo parou. Chuveiro quente. Chuveiro quente.
A água é um problema gravíssimo na Bolívia. Foi aqui em Cochabamba que, em 2000, uma verdadeira guerra se instalou nas ruas. A populacäo de um dos países mais pobres da América Latina foi às ruas quebrando tudo e enfrentando a polícia, na chamada Guerra da Água.
Em 1999, o governo boliviano tomou um empréstimo milionário do Banco Mundial, paraexpansäo do sistema de água, sob a condicäo de que este fosse privatizado após as obras.
Em uma licitacäo de um concorrente só, a californiana Bechtel arrendou a distribuicäo e tratamento das águas de Cochabamba e aumentou os precos em até 200%. A populacäo foi às ruas, quase destruiu Cochabamba inteira e conseguiu reverter o processo de privatizacäo.
Muitos hostels cobram pelo banho quente. Em cidades mais pobres, se querés tomar mais de um banho al día, tem que pagar.
Assim como Santa Cruz, em Cochabamba ñ há muito o que ver, alémn de um Cristo (maior que o carioca), onde se sobe te teleférico e dá de cara com uma pintura no muro "Perigo: Evite ser vítima de deliquentes, näo desca pelas escadas". Ok, conselho seguido, até porque o tal do soroche (mal de altitude) me deixou cansado. Duzentos metros pareciam dois quilômetros, mas passou rápido, sem problemas.
Dos pés do Cristo a vista é linda. Cochabamba fica no meio de um vale, com montanhas altíssimas, enfim, os Andes.
A Feria de la Cancha é um mundo à parte. Botei a mochila nas costas e com meu ridículo senso de direcäo, rodei em círculos até achar aquela profusäo de cores, aromas (nunca bons) e gente. Écomo uma 25 de marco do terceiro mundo.
Lá se vende desde implante de trancas, dvds piratas, frutas e celulares, até frango à céu aberto, cortado ali mesmo, com as mäos.
Botar a mäo na comida é um costume local. Os indígenas sempre carregam um saquinho com arroz e frango. No ônibus ñ têm dúvida, abrem a sacolinha e mandam com a mäo para dentro, passando para o próximo da família.
Devo cair para La Paz amanhä mesmo. Saio do quarto, deixo as mochilas na recepcäo e volto para pegar no fim da tarde. Dá tempo de aproveitar o Centro Histórico,que estava fechado hoje e pegar o ônibus no final de tarde, chegando pela manhä na capital e, aí sim, sofrer com o soroche.
Embarquei às 21h rumo à Cochabamba, uma viagem de umas dez horas. Sentei confortavelmente no meu banco, apertei o botäozinho para reclinar e pimba! O botäo estava travado. A cada vez que o ônibus acelerava, eu deitava. Se freiava, 90 graus.
Näo consegui acreditar naminha falta de sorte com ônibus. Fui até a cabine do motorista:
- Permiso, señor. Mi asiento está rompido
- No, no, no
- ¿Cómo? No compreendí
- No, no, no, meneou o hijoputa mais de três vezes.
O fato é que poucas pessoas, principalmente do comércio, säo o que poderíamos chamar de cordiais com extranjeros. Você entra, compra, paga e eles te däo o troco. Näo se troca uma palavra.
Bajé por Cochabamba às sete da matina. Tomei um táxi até o Residenciales que deveria ficar. Näo havia vagas. Somente um quarto para duas pessoas com baño provado, a 80Bs. Isso é realmente caro, em média se paga 20 a 40Bs por um quarto.
Foi difícil näo chorar. Caia uma chuva e estava muito frio. Eu desci do ônibus de chinelo e moletom, sem tomar banho a um dia e usando a mesma camiseta a três. Vendo minha cara de desespero o cara do hostel me quebrou um galho e me fez 50Bs por aquele quarto. Tendo em vista que 40 era o preco do individual sem banheiro, muy bueno. (pena ñ ter mochileiros hospedados ali, acabei rodando a cidade solito)
Quando subi ao quarto meu coracäo parou. Chuveiro quente. Chuveiro quente.
A água é um problema gravíssimo na Bolívia. Foi aqui em Cochabamba que, em 2000, uma verdadeira guerra se instalou nas ruas. A populacäo de um dos países mais pobres da América Latina foi às ruas quebrando tudo e enfrentando a polícia, na chamada Guerra da Água.
Em 1999, o governo boliviano tomou um empréstimo milionário do Banco Mundial, paraexpansäo do sistema de água, sob a condicäo de que este fosse privatizado após as obras.
Em uma licitacäo de um concorrente só, a californiana Bechtel arrendou a distribuicäo e tratamento das águas de Cochabamba e aumentou os precos em até 200%. A populacäo foi às ruas, quase destruiu Cochabamba inteira e conseguiu reverter o processo de privatizacäo.
Muitos hostels cobram pelo banho quente. Em cidades mais pobres, se querés tomar mais de um banho al día, tem que pagar.
Assim como Santa Cruz, em Cochabamba ñ há muito o que ver, alémn de um Cristo (maior que o carioca), onde se sobe te teleférico e dá de cara com uma pintura no muro "Perigo: Evite ser vítima de deliquentes, näo desca pelas escadas". Ok, conselho seguido, até porque o tal do soroche (mal de altitude) me deixou cansado. Duzentos metros pareciam dois quilômetros, mas passou rápido, sem problemas.
Dos pés do Cristo a vista é linda. Cochabamba fica no meio de um vale, com montanhas altíssimas, enfim, os Andes.
A Feria de la Cancha é um mundo à parte. Botei a mochila nas costas e com meu ridículo senso de direcäo, rodei em círculos até achar aquela profusäo de cores, aromas (nunca bons) e gente. Écomo uma 25 de marco do terceiro mundo.
Lá se vende desde implante de trancas, dvds piratas, frutas e celulares, até frango à céu aberto, cortado ali mesmo, com as mäos.
Botar a mäo na comida é um costume local. Os indígenas sempre carregam um saquinho com arroz e frango. No ônibus ñ têm dúvida, abrem a sacolinha e mandam com a mäo para dentro, passando para o próximo da família.
Devo cair para La Paz amanhä mesmo. Saio do quarto, deixo as mochilas na recepcäo e volto para pegar no fim da tarde. Dá tempo de aproveitar o Centro Histórico,que estava fechado hoje e pegar o ônibus no final de tarde, chegando pela manhä na capital e, aí sim, sofrer com o soroche.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Santa Cruz ñ é a Bolívia
Santa Cruz é uma das cidades mais ricas da Bolívia, se ñ a mais rica. Por aqui se concentra toda a producao industrial - ainda que minúscula - gás e agricultura (desculpem a digitacao, esse teclado ñ tem til, tampouco funciona a cedilha). Aqui definitivamente ñ é a Bolívia.
Neste país ñ existe classe média. Raro encontrar uma casa mais simples ou um carro em média condicoes, ou se tem um carro vindo de segunda mao do Japao ou se tem um Hummer, uma Pajero do modelo 2009 e se mora em uma mansao em um bairro bom.
Ao redor da Praca 24 de mayo, algumas lojas vendem Armani, Arezzo, Nike. E no canteiro central Avenida Cañoto, as cholas e toda gente indígena se acotovela em algo que parece um brechó a céu aberto.
O transito boliviano é um caso a (crase) parte. Ñ existe ponto de önibus, basta estender a mâo onde quer que esteja e ele para. Para descer, nada de sineta ou botäozinho, se grita Paré por favor e desce ali mesmo, seja em que faixa da avenida vocë esteja.
Semáforos säo raríssimos, preferencial ñ existe, o que torna as ruas um buzinaco maior que Curitiba.
A regra número um da sobrevivëncia na Bolívia é: Ñ crie expectativas. Hoje caminhamos mais de duas horas na direcäo errada procurando os restaurantes de frutos do mar a (crase) beira do Rio Piraí.
O Porto Madero boliviano é uma rua de terra, com carros indo e voltando, cavalos, gente vendendo de tudo e zilhöes de restaurantes half mouth pra caralho. A regra número dois também deve ser seguida a risca: Esqueca tudo o que sua mäe lhe ensinou sobre higiene. Se aparecer um cabelo na sua quesadilla, simplesmente retire e coma, poderia ser um inseto.
Aguardo o micro para ir até Cochabamba. O Marco, brasileiro, vai também, em outro horário e em um önibus precário. Os porteños sobem até Trinidad para entrar na Amazönia boliviana.
Na mochilagem as amizades duram algumas hoiras, quicá dias. Se anda pra caralho na direcäo errada e ainda fica dois dias usando a mesma camiseta, com o pé no chinelo preto de tanta terra.
Onze horas até Cochabamba, capital do distrito de mesmo nome e 2.700m arriba, vou aclimatar por lá antes de ir para La Paz. Mais um önibus de la muerte? A ver chico
Neste país ñ existe classe média. Raro encontrar uma casa mais simples ou um carro em média condicoes, ou se tem um carro vindo de segunda mao do Japao ou se tem um Hummer, uma Pajero do modelo 2009 e se mora em uma mansao em um bairro bom.
Ao redor da Praca 24 de mayo, algumas lojas vendem Armani, Arezzo, Nike. E no canteiro central Avenida Cañoto, as cholas e toda gente indígena se acotovela em algo que parece um brechó a céu aberto.
O transito boliviano é um caso a (crase) parte. Ñ existe ponto de önibus, basta estender a mâo onde quer que esteja e ele para. Para descer, nada de sineta ou botäozinho, se grita Paré por favor e desce ali mesmo, seja em que faixa da avenida vocë esteja.
Semáforos säo raríssimos, preferencial ñ existe, o que torna as ruas um buzinaco maior que Curitiba.
A regra número um da sobrevivëncia na Bolívia é: Ñ crie expectativas. Hoje caminhamos mais de duas horas na direcäo errada procurando os restaurantes de frutos do mar a (crase) beira do Rio Piraí.
O Porto Madero boliviano é uma rua de terra, com carros indo e voltando, cavalos, gente vendendo de tudo e zilhöes de restaurantes half mouth pra caralho. A regra número dois também deve ser seguida a risca: Esqueca tudo o que sua mäe lhe ensinou sobre higiene. Se aparecer um cabelo na sua quesadilla, simplesmente retire e coma, poderia ser um inseto.
Aguardo o micro para ir até Cochabamba. O Marco, brasileiro, vai também, em outro horário e em um önibus precário. Os porteños sobem até Trinidad para entrar na Amazönia boliviana.
Na mochilagem as amizades duram algumas hoiras, quicá dias. Se anda pra caralho na direcäo errada e ainda fica dois dias usando a mesma camiseta, com o pé no chinelo preto de tanta terra.
Onze horas até Cochabamba, capital do distrito de mesmo nome e 2.700m arriba, vou aclimatar por lá antes de ir para La Paz. Mais um önibus de la muerte? A ver chico
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
El omnibus de la muerte
Se ñ pegamos o trem da morte, fizemos uma longa viagem no seu similar de rodas.
O bumba partiu cheio, muita criança chorando, uma previsäo de 17h de viagem e nenhum banheiro.
Eu comecei super positivo, a estrada era boa, o visual de pôr-do-sol era lindo e, apesar de ñ ter ar condicionado, poltronas reclináveis, luz de leitura e apoio para os pés; as janelas abriam bastante.
Ficamos eu e o Marco, um paulistano estudante de filosofia que viajava com uma mala menor que minha mochila de ir para o colégio e ñ tinha levado meias, tampouco pasta de dentes. No máximo duas horas de viagem e já fizemos nossa primeira parada.
"Hora daquela mijada", pensei.
- Pätz, quebrou o ônibus, disse Marco
- Relaxa e aproveita o visual, retruquei positivo como a Madre Teresa
De repente uma fumaça branca começa a tomar conta do interior do ônibus e todo mundo se protege como pode. O motorista e algum metido a ajudante abriram a tampa do motor e começaram a acelerar para que alguma peça voltasse a fazer o que deveria.
Descemos do önibus esticar as pernas e o Marco fumar um cigarro.
- Puta merda, isso é fita crepe?, perguntei eu quando ouvi o barulho tìpico.
- É. Puta que pariu, riu Marco.
- Pergunta là que pása?
- Que pása señor?
- No pasa nada
Depois de mais alguns minutos volvemos ao ônibus, antes de mais quatro paradas como essa.
Nem eu sei como, mas mantive o bom humor e paciência até a décima segunda hora de viagem.
Paramos para jantar, o céu estava incrível, quase ñ tem poluiçäo luminosa, ao contrário do Brasil, aqui se viaja muitas horas sem ver nada nas margens da estrada, nem um casebre de fazenda, nem cidade. Os bois estäo sempre ali, na porteira, esperando alguém abrir e o önibus frear, mas luzes, nada.
Nossa cena foi arroz, macarräo, batatas fritas caseiras e salada de tomate. Näo se usava talher, com as mäos devidamente protegidas por luvas cirúrgicas, as mulheres arremessavam bocados disso e daquilo no seu prato.
Mais umas cinco horas de viagem, eu acordado e Marco desperta assustado. "Onde a gente tà? Que isso?"
- Acabou a estrada, cara
- Como assim acabou a estrada?
- Pô sei lá, tinha uma cerca de madeira no meio da estrada e aí a gente entrou nesse desvio aqui.
Dez minutos após a explicaçäo, nova parada para fita crepe.
De tudo o que posso dizer dessa viagem é que eu estava errado. Deus existe, ele é forte e salava. Pensei muito nisso qdo nosso ônibus choacoalhava em uma estrada de terra, a poucos metros de um buraco imenso onde estavam fundando uma ponte. Eu rezei muito e estou aqui.
Chegamos em Santa Cruz às 9h da matina, pegamos um táxi até a praça principal e achamos um hostel barato e aconchegante, apesar de ñ ter ventilador...o que faz muita diferença aqui.
Santa Cruz é uma cidade rica, com um centro histórico, prédios do governo e pichaçöes de "Evo Asesino Instucional" por todos os lado e bandeiras verde e brancas nas portas dos edifícios.
Ñ há muito o que se ver por aqui. É um ponto de conexäo.
Amanhä sigo para Cochabamba me aclimatar com a altitude e seguir para La Paz.
Ariel e Luis seguem para Trinidad, onde continuam sua viagem para cruzar a Amèrica do Sul por rios, do Prata atè o Orinoco e o Marco deve comprar umas meias e partir para Sucre.
Amanhä é un nuevo dia, por ora vou andar atrás de algo para comer, sem pollo.
O bumba partiu cheio, muita criança chorando, uma previsäo de 17h de viagem e nenhum banheiro.
Eu comecei super positivo, a estrada era boa, o visual de pôr-do-sol era lindo e, apesar de ñ ter ar condicionado, poltronas reclináveis, luz de leitura e apoio para os pés; as janelas abriam bastante.
Ficamos eu e o Marco, um paulistano estudante de filosofia que viajava com uma mala menor que minha mochila de ir para o colégio e ñ tinha levado meias, tampouco pasta de dentes. No máximo duas horas de viagem e já fizemos nossa primeira parada.
"Hora daquela mijada", pensei.
- Pätz, quebrou o ônibus, disse Marco
- Relaxa e aproveita o visual, retruquei positivo como a Madre Teresa
De repente uma fumaça branca começa a tomar conta do interior do ônibus e todo mundo se protege como pode. O motorista e algum metido a ajudante abriram a tampa do motor e começaram a acelerar para que alguma peça voltasse a fazer o que deveria.
Descemos do önibus esticar as pernas e o Marco fumar um cigarro.
- Puta merda, isso é fita crepe?, perguntei eu quando ouvi o barulho tìpico.
- É. Puta que pariu, riu Marco.
- Pergunta là que pása?
- Que pása señor?
- No pasa nada
Depois de mais alguns minutos volvemos ao ônibus, antes de mais quatro paradas como essa.
Nem eu sei como, mas mantive o bom humor e paciência até a décima segunda hora de viagem.
Paramos para jantar, o céu estava incrível, quase ñ tem poluiçäo luminosa, ao contrário do Brasil, aqui se viaja muitas horas sem ver nada nas margens da estrada, nem um casebre de fazenda, nem cidade. Os bois estäo sempre ali, na porteira, esperando alguém abrir e o önibus frear, mas luzes, nada.
Nossa cena foi arroz, macarräo, batatas fritas caseiras e salada de tomate. Näo se usava talher, com as mäos devidamente protegidas por luvas cirúrgicas, as mulheres arremessavam bocados disso e daquilo no seu prato.
Mais umas cinco horas de viagem, eu acordado e Marco desperta assustado. "Onde a gente tà? Que isso?"
- Acabou a estrada, cara
- Como assim acabou a estrada?
- Pô sei lá, tinha uma cerca de madeira no meio da estrada e aí a gente entrou nesse desvio aqui.
Dez minutos após a explicaçäo, nova parada para fita crepe.
De tudo o que posso dizer dessa viagem é que eu estava errado. Deus existe, ele é forte e salava. Pensei muito nisso qdo nosso ônibus choacoalhava em uma estrada de terra, a poucos metros de um buraco imenso onde estavam fundando uma ponte. Eu rezei muito e estou aqui.
Chegamos em Santa Cruz às 9h da matina, pegamos um táxi até a praça principal e achamos um hostel barato e aconchegante, apesar de ñ ter ventilador...o que faz muita diferença aqui.
Santa Cruz é uma cidade rica, com um centro histórico, prédios do governo e pichaçöes de "Evo Asesino Instucional" por todos os lado e bandeiras verde e brancas nas portas dos edifícios.
Ñ há muito o que se ver por aqui. É um ponto de conexäo.
Amanhä sigo para Cochabamba me aclimatar com a altitude e seguir para La Paz.
Ariel e Luis seguem para Trinidad, onde continuam sua viagem para cruzar a Amèrica do Sul por rios, do Prata atè o Orinoco e o Marco deve comprar umas meias e partir para Sucre.
Amanhä é un nuevo dia, por ora vou andar atrás de algo para comer, sem pollo.
Quijarro ou Onde os fracos näo tem vez
Quando apiortei na fronteira, a Migra estava fechada. O trânsito de carros por ali ñ é controlado, nada é controlado. Se quiseres passar com uma bazooka no colo do motorista, com a ponta para fora da janela, talvez só tenha problemas se ñ tiver nota fiscal.
enquanto esperava encontrei um casal de holandeses. Ela psicòloga, ele engenheiro aeronáutico, pediram licença e estäo na estrada há sete meses, vinham da Venezuela e a conversa me rendeu boas dicas de onde ir, o que ñ fazer.
Mais algumas meia-hotinhas (ninguém sabia se abria às 14h brasileiras ou bolivianas) chegaram dois porteños, com osotaque mais porteño que já ouvi na vida. Um deles tinha estado na casa de parentes em Curitiba dias antes.
Mais boas horinhas, carimbo, vacuna, treinta dias.
Subi em um táxi com os argentinos (os holandeses estavam entrando no Brasil)e fomos até Quijarro, onde tive a primeira impressäo do que é a Bolívia.
Jà tinha ouvido muito falar em choque cultural, mas sempre achei papo de sociòlogo ou o mal que acomete as cinturas dos europeus no carnaval carioca.
Enfim, como o taxista argentino também, e muito louco, havia nos alertado, ñ conseguimos passagem para o trem daquele dia. Na fila, frustrados, encontramos um maluco que o uns 15 minutos depois fui perceber q ñ se dava muito bem com o espanhol e era brasileiro..cara de gringo.
Todos estávamos chocados com Porto Quijarro e queríamos sair muito rápido dali e aceitamos o ônibus, que era mais barato e rápido que o tren. Minto, que era supostamente mais rápido que o trem.
A melhor definiçäo de choque cultural me iluminou os olhos quando, já de passagens compradas, mirávamos embasbacados a paisagem da cidade. Ruas de terra, com poeira em tudo e carros japoneses caindo aos pedaços buzinando e abrindo espaço.
O Ariel, um dos porteños foi perguntar pelo banheiro e a garota que cuidava do suposto bar lhe perguntou porque. Meio encabulado ele respondeu em outras palavras e ela respondeu sem meio termo.
- No, no, hace por la calle mismo
Foi ali, com a Ariel mijando no mato ao lado da mesa, um guri completamente imundo brincando no chäo do bar, um caminhäo com letreiro japonês, aquela poeira toda se estendendo por onde a vista alcançava que entendi o que é choque cultural.
As cervejas se quedarón vazias e descemos até a suposta rodoviária, contrariando os conselhos de todo mundo que já andou naquele ônibus...
enquanto esperava encontrei um casal de holandeses. Ela psicòloga, ele engenheiro aeronáutico, pediram licença e estäo na estrada há sete meses, vinham da Venezuela e a conversa me rendeu boas dicas de onde ir, o que ñ fazer.
Mais algumas meia-hotinhas (ninguém sabia se abria às 14h brasileiras ou bolivianas) chegaram dois porteños, com osotaque mais porteño que já ouvi na vida. Um deles tinha estado na casa de parentes em Curitiba dias antes.
Mais boas horinhas, carimbo, vacuna, treinta dias.
Subi em um táxi com os argentinos (os holandeses estavam entrando no Brasil)e fomos até Quijarro, onde tive a primeira impressäo do que é a Bolívia.
Jà tinha ouvido muito falar em choque cultural, mas sempre achei papo de sociòlogo ou o mal que acomete as cinturas dos europeus no carnaval carioca.
Enfim, como o taxista argentino também, e muito louco, havia nos alertado, ñ conseguimos passagem para o trem daquele dia. Na fila, frustrados, encontramos um maluco que o uns 15 minutos depois fui perceber q ñ se dava muito bem com o espanhol e era brasileiro..cara de gringo.
Todos estávamos chocados com Porto Quijarro e queríamos sair muito rápido dali e aceitamos o ônibus, que era mais barato e rápido que o tren. Minto, que era supostamente mais rápido que o trem.
A melhor definiçäo de choque cultural me iluminou os olhos quando, já de passagens compradas, mirávamos embasbacados a paisagem da cidade. Ruas de terra, com poeira em tudo e carros japoneses caindo aos pedaços buzinando e abrindo espaço.
O Ariel, um dos porteños foi perguntar pelo banheiro e a garota que cuidava do suposto bar lhe perguntou porque. Meio encabulado ele respondeu em outras palavras e ela respondeu sem meio termo.
- No, no, hace por la calle mismo
Foi ali, com a Ariel mijando no mato ao lado da mesa, um guri completamente imundo brincando no chäo do bar, um caminhäo com letreiro japonês, aquela poeira toda se estendendo por onde a vista alcançava que entendi o que é choque cultural.
As cervejas se quedarón vazias e descemos até a suposta rodoviária, contrariando os conselhos de todo mundo que já andou naquele ônibus...
Campo Crescente
Após umas boas horas na sala de embarque do Afonso Pena, lendo uma recém-comprada ediçäo de Fábulos de Esopo, embarquei enganadamente rumo a Campo Grande. O horàrio de saída era 18:15, o de chegada 18:45..o que significava uma hora e meia de voo, já que tem o fuso. Foi uma hora a mais de Simpsons no iPod.
Campo Grande è uma capital muito acolhedora. Tem aquele ar acolhedor típico das cidades pequenas: bares com cover de sertanejo no teclado, gente que te dá boa noite e te oferece um cafezinho.
Segundo meus ciccerones, a cidade está em plena expansäo. Tem obra para todos os lado e Campo Grande vai, aos poucos, se verticalizando. Ali também fica a segundfa maior resreva natural em área urbana do mundo, perdendo apenas para o Central Park. Confesso que é grande pra caralho.
Tanto que a sede do governo, os gabinetes e etceteras säo no interior dessa mata rodeados de verde e com placas alertando: Quem voa é passarinho, dirija devagar. Respeite nossos animais.
Segundo me contaram é bastante comum alguém transformar um quati em tapete.
Na quinta-feira logo cedo, embarcava rumo a Corumbá, seis horas de viagem pelo Pantanal, com direito a ver tucano voando. Dali eu atravessaria rumo a Quijarro...
Campo Grande è uma capital muito acolhedora. Tem aquele ar acolhedor típico das cidades pequenas: bares com cover de sertanejo no teclado, gente que te dá boa noite e te oferece um cafezinho.
Segundo meus ciccerones, a cidade está em plena expansäo. Tem obra para todos os lado e Campo Grande vai, aos poucos, se verticalizando. Ali também fica a segundfa maior resreva natural em área urbana do mundo, perdendo apenas para o Central Park. Confesso que é grande pra caralho.
Tanto que a sede do governo, os gabinetes e etceteras säo no interior dessa mata rodeados de verde e com placas alertando: Quem voa é passarinho, dirija devagar. Respeite nossos animais.
Segundo me contaram é bastante comum alguém transformar um quati em tapete.
Na quinta-feira logo cedo, embarcava rumo a Corumbá, seis horas de viagem pelo Pantanal, com direito a ver tucano voando. Dali eu atravessaria rumo a Quijarro...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Digo bóra
Por que caralhos escrever um blog sobre uma viagem pela América do Sul. Me parece bem mais fácil depois de todo esse rolet, me sentar à mesa com bons amigos e contar todas as desventuras.
Mas o fato é que nasci jornalista, fui parido prematuro em uma universidade half mouth e tenho o anseio de contar e acrescentar qualquer coisa que valha.
Parto hoje para Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Fica em qualquer lugar entre o Pantanal e intermináveis plantações de soja. Vou voando para economizar horas de viagem e de lá adentro a Bolívia, na separatista Santa Cruz de La Sierra e de lá para o Altiplano e por onde mais valha andar.
Mas por que caralhos viajar? Deixo para trás nenhum emprego, um namoro que achei que duraria dez séculos mas não passou de quatro meses, pais preocupados com um pequeno problema psicológico que me acomete e uma dezena de bons amigos que consegui esse ano.
Dois mil e nove certamente foi o pior ano de minha vida. Só perdas: emprego, namoros, relação com a família, saúde, uma italiana de olhos verdes que me viu nascer e certamente a paciência. Começar o ano fazendo algo legal me vale.
Já diria Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: Alguns países se especializam em perder e ganhar. A América Latina foi precoce, se especializou em perder desde os tempos em que os primeiros audazes do Renascimento se lançaram ao mar e quanto mais séculos passaram continuamos a ser bons nisso.
Paixões à parte, a América do Sul passou por uma pequena guinada à esquerda na última década. Bolívia, Venezuela, Equador, Brasil e Chile emergiram com presidentes socialistas e políticas econômicas nacionalistas e se impuseram como emergentes de fato.
O Pré-Sal é nosso, o gás é da Bolívia, o petróleo é da Venezuela. Estamos nos especializando em mandar os colonizadores de volta para casa (ou abrirem novas fronteiras na África)
Descobrir o que se passa nos vizinhos certamente vai acrescentar muito ao sangue latino-americano que sempre honrei. Europa a casa do cacete. Sudamerica, aí vou eu.
**Me comprometi comigo mesmo a zerar as emissões de carbono geradas durante a viagem, usando o cálculo da Iniciativa Verde, baseado em distâncias que percorri de avião e ônibus.
Mas o fato é que nasci jornalista, fui parido prematuro em uma universidade half mouth e tenho o anseio de contar e acrescentar qualquer coisa que valha.
Parto hoje para Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Fica em qualquer lugar entre o Pantanal e intermináveis plantações de soja. Vou voando para economizar horas de viagem e de lá adentro a Bolívia, na separatista Santa Cruz de La Sierra e de lá para o Altiplano e por onde mais valha andar.
Mas por que caralhos viajar? Deixo para trás nenhum emprego, um namoro que achei que duraria dez séculos mas não passou de quatro meses, pais preocupados com um pequeno problema psicológico que me acomete e uma dezena de bons amigos que consegui esse ano.
Dois mil e nove certamente foi o pior ano de minha vida. Só perdas: emprego, namoros, relação com a família, saúde, uma italiana de olhos verdes que me viu nascer e certamente a paciência. Começar o ano fazendo algo legal me vale.
Já diria Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: Alguns países se especializam em perder e ganhar. A América Latina foi precoce, se especializou em perder desde os tempos em que os primeiros audazes do Renascimento se lançaram ao mar e quanto mais séculos passaram continuamos a ser bons nisso.
Paixões à parte, a América do Sul passou por uma pequena guinada à esquerda na última década. Bolívia, Venezuela, Equador, Brasil e Chile emergiram com presidentes socialistas e políticas econômicas nacionalistas e se impuseram como emergentes de fato.
O Pré-Sal é nosso, o gás é da Bolívia, o petróleo é da Venezuela. Estamos nos especializando em mandar os colonizadores de volta para casa (ou abrirem novas fronteiras na África)
Descobrir o que se passa nos vizinhos certamente vai acrescentar muito ao sangue latino-americano que sempre honrei. Europa a casa do cacete. Sudamerica, aí vou eu.
**Me comprometi comigo mesmo a zerar as emissões de carbono geradas durante a viagem, usando o cálculo da Iniciativa Verde, baseado em distâncias que percorri de avião e ônibus.
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