Para chegar até a Ilha do Sol, um barquinho te leva por umas três horas por entre as montanhas e as águas fodidamente azuis do Titicaca. Eu acho que já disse como é grande, mas o fato é que em alguns trechos ñ se via a outra margem.
Chegamos lá e nada de hostel barato. Os argentinos decidiram ficar em barracas. Era free, ñ tinha banheiro nem ducha, mas era free!
Um pouco relutante pelo montante de granizo do dia anterior, embarquei na trip. Ainda no bote conhecemos Damián, um argentino de La Plata, capital da província de Buenos Aires, há dois meses viajando, rumo â Amazônia e, quiçá, México. Um cara boa pinta, falando täo rápido que nem os outros argentinos o entendiam. Damián agregou no nosso acampamento.
Dezenas de barracas se espalhavam pela areia. Um psicodália â boliviana, com malabares, fogueira com tambores e argentinas despenteadas. Pela tarde fazia calor, sol de rachar e â noite, dormíamos com duas blusas, dentro de um saco de dormir, com frio.
Da parte norte, onde estávamos, até a sul, säo 10km de caminhada sobre as montanhas, 3h30, que fiz bufando, mas valeu a pena. Para voltar tomei um barco e conheci Paulo e Nicole, dois brasileiros, ele gaúcho de Porto Alegre, estudando no Rio. Ela, carioca da gema, filha de atriz e estudante de teatro, que também agregaram nosso acampamento. Enfim português.
Faminto, fui comprar bananas e bolachas em um tienda, pequenas vendas que oferecem desde banana e päo até Snickers e Lays, com preço para gringo. Ali encontrei Sêo Augustín, à porta dos seus 70 anos, nascido e criado na Isla del Sol, bisneto de incas.
"Antes era melhor, vivíamos da agriucultura, depois da pesca, mas hoje, com o lago contaminado o pescado sumiu e começamos a viver do turismo", disse, com o olhar perdido na margem peruana.
O Titicaca era refúgio sagrado dos incas, que rasgaram os morros com plataformas para o plantio de batata e milho - base alimentar da Bolívia e Peru até hoje - e dali sacavam tambèm o pescado.
O problema, me contou Sêo Augustìn, è que mineradoras e cidades peruanas começaram a despejar seus resíduos no lago e, para contribuir com o estrago, a poça d´água virou uma hidrovia, cortada por balsas, cargueiros e iates para gringos.
"Meus avós atravessavam em totoras, meus pais em bote de madeira e hoje olha aí", disse apontando com o nariz o pequeno píer por onde desembarcamos.
A vida na ilha é uma mescla de bicho grilos acampados na areia por onde as famílias passam com seus porcos, vacas e ovelhas ao fim do dia, recolhendo os bichos das pastagens do alto dos morros.
As coisas ñ säo mais as mesmas para Sêo Augustín. Os turistas trouxeram lixo plástico, Snickers e barcos â diesel, mas que fique tranquilo, ninguém vai lhe roubar a lua cheia mais linda que vi em toda minha existência. Suerte, señor!
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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