quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um museo de tristes lembranças

Santiago se parece Säo Paulo, näo obstante, tem uns 15 milhöes de habitantes a menos, algumas ciclofaixas, trânsito respeitoso e avenidas largas e verdes.
O Chile é um dos países mais peculiares da América Latina. Sempre teve uma postura ofensiva em relaçäo as Relaçöes Internacionais, tomou o mar da Bolívia, uma parte da Patagônia argentina, permitiu a presença da Inglaterra durante a Guerra das Malvinas, preferiu a Alca ao Mercosul e, näo obstante, causou uma corrida armamentista no sul do continente a partir de 2003, quando resolveu investir pesado em armamento ninguém sabe para quê, mas todo mundo resolveu fazer o mesmo desde entäo.

Assim como toda a América do Sul, a década de 1970 foi marcada aqui pela Operaçäo Condor. O governo americano, em plena corrida da Guerra Fria, resolveu investir prata para evitar o socialismo no andar de baixo, dando aos militares a autorizaçäo para realizar um verdadeiro massacre à americana.

O Chile, como no Brasil, somam 3 mil desaparecidos políticos daquela época. A Argentina ganha com seus mais de 10 mil. Após dez anos de construçäo, Santiago inaugurou seu Museo de la Memoria em fins de janeiro. Chacoalhei por alguns minutos em espaçosos e limpos vagöes de metrô até lá.

O projeto arquitetônico é de dois paulistanos. Um grande cubo de concreto e cobre esverdeado com três andares e muitas lágrimas, incluo as minhas nessa lista.
Em exposiçäo estäo vídeos do fatídico 11 de setembro de 2003, cartas de filhos para pais no exílio. Bilhetes de filhos à mäe dizendo "Quarta-feira estarei livre e enfim te abraçarei, mamacita", emoldurado ao lado do atestado de óbito datand terça à noite.
A estória mais surreal é a de um casal de estudantes que foi levado em meio a uma estrada deserta. Os militares os encharacaram com gasolina e, seguindo ordens, atearam fogo e foram embora. Já estaria surreal o suficiente por aqui, mas eles sobreviveram e caminharam alguns quilômetros - como zumbis, como relatam no testemunho - em busca de ajuda. O rapaz morreu, ela continuou viva, com 80% do corpo queimado para contar em um pedaço de papel amassado, dias depois o que aconteceu. O papel está lá.

O que mais me indignou na história toda näo aconeteceu no Chile, aconteceu na outra costa, onde esqueci de pagar o aluguel no dia 20.
Na entrada do museu, um corredor com placas de diversos países da África, Ásia e Américas explicava um pouco sobre suas tragédias e sobre os desdobramentos de seus julgamentos. Faltava uma placa ali.

Durante a noite alguém invade sua casa, sem explicar nada, leva seu filho, sem dizer para onde. Ele nunca mais volta. A paz volta a reinar no seu país, seu filho näo, e os assassinos dele levam a homenagem nas principais rodovias que cruzam o país, bem-vindo ao Brasil. Nunca julgamos nossos carrascos, nunca encontramso nossos mortos.

"Ayer buscavamos nuestros hijos. Hoy buscamos sus huesos. Esto no se va a terminar nunca y nunca volverá a normalidad, pues ya me olvidé como se fuera la vida en la normalidad" (testemunho de uma mäe sem seu filho, Chile, 2003)

2 comentários:

  1. Ow filho, tudo bem contigo? Por que toda vez que vejo tragédia na América Latina lembro de você heim? Tá no Chile ainda? Mande notícias e se cuida por aí. Grande abraço.

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  2. Ri, tenta dar notícias de onde vc está! Se precisar de alguma coisa ai o marido da Mari está em uma cidade perto de Concepcion e a empresa que ele trabalha vai tentar traze-los embora. O telefone do hotel em que ele está é 5643320254 - Fabrizio Contin.
    bjs

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