O pequeno problema que passou em Machu Pichu me chegou aos ouvidos em uma fria noite chuvosa em La Paz. Eu cheguei a cidade com a intençäo de passar duas noites, fiquei cinco. O fato é que mais uns cinco dias estaria em Cuzco.
A partir daí pelo menos 70% das pessoas que tenho conhecido pelo caminho, têm mudado os planos. Eu me decidi por nem entrar no Peru. Baixei de Copacabana para La Paz tomar um bus para Potosí no mesmo dia. Ñ deu certo e passei uma noite por lá.
Chegamos a Potosí fazia um frio do caralho. Ali já foi o coraçäo de prata da América. A cidade mais rica do continente, chegou a ter mais habitantes que Madrid e foi o único lugarejo do mundo a ter uma casa da moeda española fora do terrirório europeu.
Conta-se que com toda a prata e ouro que os espanhóis saquearam, digo, extraíram das minas de Cerro Rico - como é chamado o monte onde estäo as jazidas da regiäo - poderia se construir uma ponte ligando a Bolívia à Europa.
Tudo na vida acaba, inclusive a prata. Hoje Potosí tem pouco mais de 100 mil habitantes e um time de futebol medíocre.
As minas ainda estäo sangrando, em especial estanho e chumbo. O trabalho é feito a punho e martelo, como a cinco séculos, por mineiros com uma expectativa de vida de 40 a 50 anos, que agregam a cooperativas que vendem o minério a multinacionais, que assim sendo, nada têm a ver com as condiçöes de trabalho ali embaixo.
A realidade é pesada. O trabalho infantil é recorrente. A jornada de trabalho, regada a folhas de coca e álcool etílico potável (92%) misturado a Coca Quikoa, chega a 13 horas e a renda fica em torno de 80 bolivianos por dia.
Da herança européia ainda restou algo de bom a Potosí. uma vida cultural intensa. Teatros, cinema com estréias nacionais e um dos movimentos estudantis mais organizados da Bolívia. A boa intençäo se lê nas paredes da cidade como "Desobediência, por tua culpa serei feliz". Reza a lenda, ou os hippies de Fortaleza que encontrei na praça principal, que Potosí tem um movimento anarquista. Ñ encontrei.
Na mesma praça onde o mangueio corria solto em castellano, uma placa grafava: O povo potosíno nunca mais permitirá o saqueio de suas riquezas mineirais nem a exploraçäo de seu povo em proveito da metrópole.
"Os espanhóis säo bem-vindos, a culpa foi nossa de ter entregue o país na mäo deles sem fazer nada. Culpa dos ricos da época", respondeu Juán, que, além de compartilhar do nome de 80% da populaçäo local, também compartilha da nova posiçäo andina.
Plano de viagem: Agora em Sucre por mais dois dias. Daqui para Uyuny, visita ao Salar. Semana que vem devo estar entrando no Norte da Argentina. Uma semana e meia ali e é chegada a hora de pensar em voltar para casa. A saber se por Santiago ou Buenos Aires
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
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